Saúde pública

O parteiro de Quendero

É o retrato de um surto de Ébola no centro da epidemia. Como 85 pessoas foram infetadas e 51 morreram só por terem ido a um funeral, numa aldeia da Guiné Conacri.

Até ao passado dia 15 de Janeiro ainda se registaram casos de infeção ligados ao funeral que teve lugar no final de 2014, na aldeia de Quendero, no distrito de Kissidougou, sul da Guiné Conacri.

Técnicos do Centro de Controlo de Doenças (CDC) dos Estados Unidos estiveram no local, não só ajudaram a controlar o surto como o investigaram e reconstituíram os caminhos do vírus.

O paciente número 1 foi um homem bem conhecido na comunidade. Deslocava-se de aldeia em aldeia, sempre que era chamado para ajudar a nascer uma criança ou fazer a circuncisão de outra.

A última vez que prestou os seus serviços foi precisamente na cerimónia de circuncisão de uma criança que veio a falecer de causa desconhecida em meados de Novembro de 2014. O “parteiro” regressou a Quendero, a sua aldeia natal, uma semana depois. Adoeceu e morreu, a 4 de dezembro, sem nunca ter ido aos serviços de saúde. A morte atribuída a causas desconhecidas numa altura em que a epidemia de Ébola estava no auge e havia na região alguns centros de tratamento.

O funeral reuniu perto de 100 pessoas que vieram de seis aldeias vizinhas. Foi um funeral tradicional, o que significa que o corpo foi lavado, tocado e beijado. As pessoas mais próximas do falecido são chamadas a participar destes ritos.

O alerta oficial foi dado a 18 de dezembro de 2014. Os técnicos de saúde comunitária do distrito de Kissidougou fizeram chegar ao Ministério da Saúde da Guiné Conacri um dado alarmante: no espaço de uma semana os casos confirmados de Ébola passaram de 1 para 62.

O aviso levou o governo a chamar equipas da Organização Mundial de Saúde e do CDC para averiguarem o que se passava. Através de testes e entrevistas a familiares das vítimas, os técnicos estrangeiros descobriram que 85 pessoas foram contagiadas em cadeia, a partir do funeral do “parteiro” de Quendero.

Em África, alguém morrer com febre e diarreia não é propriamente um sinal de alarme internacional.Os primeiros casos de Ébola poderão até ter acontecido no final de 2013, mas foi só em Março de 2014 que o resultado dos testes feitos no Instituto Pasteur, em França, confirmaram que o vírus estava de volta. Na altura ninguém imaginava que estava a começar a pior epidemia de sempre.

Ainda hoje, os funerais tradicionais continuam a ser um obstáculo ao controlo da epidemia.

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