Corpo & Alma

Prazer e adrenalina das compras sem limites

Não há conhecimento de estudos em Portugal sobre a dependência das compras ou compra compulsiva. Trata-se de uma realidade que tem muitos pontos comuns com adições como o álcool ou as drogas, mas é um problema praticamente invisível.

“O meu filho precisa”, “isto era mesmo feito para mim”, “estava mesmo a precisar para me sentir melhor”, “eu merecia”. São algumas das principais desculpas usadas para o ato da compra, por parte de pessoas que são dependentes de compras. À semelhança da adição ao sexo, a oniomania (do grego, onios, compra e mania, insanidade, excesso), não é considerada, pela comunidade científica em geral, uma dependência, visto só serem reconhecidas como tal as adições com substâncias como o álcool e as drogas, tendo sido apenas recentemente aceite como dependência também o jogo compulsivo.

Pedro Hubert, psicólogo especializado em adição, contactado pelo Ciência 2.0, tem um parecer diferente. “A dependência de compras corresponde a todos os critérios de uma dependência: a perda de controlo – que é uma das características mais importantes –, a tolerância, que se vê pela necessidade de comprar cada vez mais, a síndrome de abstinência e a troca de prioridades”, justifica.

Pessoas impulsivas, com pouca tolerância à frustração, baixa autoestima e dificuldade em gerir sentimentos. Este é o perfil de uma pessoa com esta psicopatologia. Dando conta da sua experiência com o tratamento de várias adições, Pedro Hubert dá o exemplo de uma paciente que contraiu imensas dívidas devido ao seu problema. Tinha um bom emprego, ganhava muito dinheiro e tinha uma boa casa, que teve de vender para pagar uma dívida. Um ano depois, voltou a endividar-se.

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Síndrome de abstinência com parecenças com o do tabaco “Desenvolve-se uma tolerância grande num problema que é invisível e de consequências nefastas a nível social, familiar e financeiro. Uma pessoa começa por gastar 100 euros, depois gasta 300, e pode gastar milhões de euros se o entender, para sentir a mesma adrenalina ou para se alhear dos seus sentimentos”, alerta o psicólogo. Neste ponto a pessoa perde o controlo para sentir uma sensação de prazer e felicidade, provocadas por uma libertação de substâncias no cérebro como a dopamina e a endorfina.

O que importa é o ato da compra. A pessoa contrai dívidas atrás de dívidas. “Têm cartões de várias lojas: de carteiras, de sapatos ou de roupa. Saem do trabalho para ir às compras, fazem dívidas com o cartão, omitem muito e depois compram e trocam e escondem as compras no armário. Têm roupas que nem sequer experimentaram”, descreve Pedro Hubert. Quanto à síndrome de abstinência, se a pessoa não comprar, pode sentir irritabilidade e ansiedade, sintomas relacionados com a dependência do tabaco.Em casos extremos, pode resultar em quadros depressivos e em desespero.

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Troca de dependências. Segundo o psicólogo, se a família não intervir, o oniomaníaco não vai procurar ajuda, negando que tem um problema ou minimizando a sua existência. O tratamento pode durar de 30 a 90 dias e é muito específico para as características dos pacientes. “A abordagem mais comum é a abordagem cognitiva-comportamental, o que significa que há uma abstinência da situação de compra, um controlo do dinheiro, um trabalho a nível das emoções e dos pensamentos, de perceber quais os fatores de risco e de defesa, de implicar a família no tratamento e de criar planos de dívida”, explica Pedro Hubert.

Em Portugal, ao contrário de casos como o jogo compulsivo, o álcool e as drogas, não existem grupos de autoajuda para este distúrbio. Em alguns casos de dependência, há uma necessidade de preenchimento de um vazio emocional. De acordo com o psicólogo, pode existir uma substituiação de dependências. Pessoas que consumiam álcool ou que jogavam, por exemplo, passam a ficar dependentes de compras para ocupar aquele vazio ou o inverso.

Por Renata Silva

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