Ciências

Mais pólen no ar nos próximos 100 anos

A produção de pólen de gramíneas e a exposição a alergéneos podem aumentar até 202% nos próximos 100 anos. Esta é a principal conclusão de uma investigação da Universidade de Massachusetts Amherst publicada na revista PLOS ONE.

Este incremento deve-se ao aquecimento global que se prevê desencadear uma maior concentração dos níveis de dióxido de carbono (CO2) e de ozono (O3). O impacto a nível mundial na saúde humana preocupa os investigadores. O estudo norte-americano confirmou ainda pela primeira vez a existência de uma ligação entre a produção de pólen das gramíneas e o CO2.

O CO2 estimula a reprodução e crescimento nas plantas, ao passo que o ozono tem um impacto negativo, apontam os autores. A investigação liderada pela cientista de saúde ambiental Christine Rogers determinou que os efeitos interativos do CO2 e o ozono tinham impacto no aparecimento de grandes níveis de produção do pólen de gramíneas, um dos maiores alergéneos humanos.

“A estimulação da produção de pólen de gramíneas devido aos níveis elevados de CO2 vai aumentar a sua concentração no ar e aumentar a exposição e sofrimento nos indivíduos devido a estas alergias”, alerta Christine Rogers, em comunicado.

Doenças alérgicas têm aumentado nos últimos anos devido a modificações ambientais

Dados da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) estimam que a doença alérgica afete, em Portugal, cerca de um terço da população. Trinta por cento tem queixas de rinite, 18 queixas de conjuntivite e 10 por cento tem asma. Em comentário ao estudo, Luís Delgado, presidente da SPAIC, sublinha que este se encontra na mesma linha com o que tem vindo a acontecer nos últimos anos – “um aumento exponencial das doenças alérgicas em resultado destas alterações ambientais”.

O pólen da família das Poaceae (gramíneas) é uma das principais fontes de aeroalergénios no mundo, particularmente na Europa Mediterrânica. Estes são os alergéneos com maior prevalência em Portugal e são alvo de maior preocupação nas zonas urbanas. “Na Primavera, entre os meses de maio e julho, há milhões de pequenas particulas de pólen no ar que são transportadas pelo vento, mas que nestas zonas, batem nos prédios e caem no chão ou em cima do carros, podendo ser inaladas por indivíduos sensibilizados e desencadear uma crise de asma ou rinoconjuntivite”, refere o especialista.

“Este estudo é preocupante e reforça a clara ligação entre os ecossistemas e a saúde humana”, salienta Rogério Nunes, presidente da direção da Sociedade Portuguesa de Saúde Ambiental, em declarações ao Ciência 2.0.

Os autores sublinham que esta investigação vem corroborar outros estudos que anteriormente realizaram, mas que este em particular apresenta resultados mais extremos e impactos mais amplos. Para chegar a estas conclusões os investigadores expuseram uma espécie de gramíneas (Phleum pratense L.) existente nos Estados Unidos, mas muito semelhantes às que se encontram na Europa, em tanques a diferentes concentrações de gases atmosféricos para testar as suas reações.

Luís Delgado chamou ainda a atenção para um outro factor ligado à poluição: a combinação de poluentes presentes sobretudo nos carros, com o pólen, por exemplo, das gramíneas, aumenta o potencial alergénico destas plantas, sensibilizando mais facilmente doentes alérgicos. Os especialistas recomendam o evitar de atividades ao ar livre na altura em que as concentrações de pólen são maiores, sobretudo na primavera, e uma especial atenção ao filtro do carro, certificando-se que está em condições de filtrar o pólen.

Por Renata Silva

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