Ciências

Como a memória nos engana

Será que tudo o que existe na nossa memória realmente aconteceu? A ciência mostra-nos que não. A memória pode atraiçoar-nos. Sem que nos apercebamos.

Imagine que lhe pedem para memorizar uma lista com as seguintes palavras:  Lareira, inverno, quente, neve, gelo, casaco, roupa, cachecol, arrepio, tremer, agasalho, cama, aquecedor, desconforto. Se lhe perguntarem o que ouviu vai dizer muitos destes vocábulos e também a palavra frio, mas esta não está na lista. Acabou de criar, assim, uma ilusão de memória.

São as chamadas ilusões de memória e têm sido alvo de diversos estudos. Assistimos a um crime. Mas não falamos logo com as autoridades. Estão outras testemunhas no local, com as quais conversamos ou podemos ler entretanto um jornal. Estes factos podem ser suficientes para que se criem distorções de memória. “Temos muitas vezes um esquema, uma ideia de como as coisas decorrem e como as coisas decorrem é diferente de como nós vimos as coisas acontecer”, explica ao Ciência 2.0 Pedro Albuquerque, docente da Universidade do Minho e que lidera um grupo de investigação na área da memória humana.

De facto, podemos recordar algo que não aconteceu. “O que nos preocupa enquanto investigadores da memória é que as pessoas podem relatar episódios que nunca viveram com um grau de certeza tal, que, quem as ouve, vai acreditar no que disseram”, explicou.

Não há muitas diferenças entre memórias verdadeiras e falsas

E o que se passa no nosso cérebro quando surgem distorções de memória? “Pelos estudos realizados acerca das falsas memórias, parece não haver uma grande diferença entre uma memória verdadeira e uma memória falsa, no sentido em que são relatadas, são verbalizadas e então os mecanismos cerebrais serão mais ou menos os mesmos”, explica. A única forma de distinguirmos se uma memória é verdadeira ou falsa, diz-nos o investigador, é ir à fonte da memória, portanto ao momento em que processámos essa informação. O que acontece é que nem sempre a estamos a monitorizar.

Este conceito, de falsa memória, teve origem no início dos anos 90, quando os investigadores que estudavam a quantidade de recordações que um ser humano podia ter, descobriram que podem haver distorções na memória.

Ilusões de memória podem acontecer durante um interrogatório

A importância do estudo destas falsas memórias é elevada, dado que pode ajudar na investigação de muitos casos e ser aplicada, por exemplo à ciência forense. “Há, hoje em dia, várias avaliações forenses em torno, por exemplo, da tutela de menores em caso de divórcio. É importante perceber se aquilo que a criança está a dizer sobre aquilo que um pai terá feito ou o que seja se é ou não verdade ou se é sugestão”, revela o investigador.

Na verdade, a forma como uma pergunta é feita, no caso, por exemplo, de um interrogatório, o número de vezes que se repete uma informação e o tempo que temos para responder podem ser determinantes para a ocorrência de distorções de memória. “A ajuda que a psicologia da memória tem dado quer ao sistema judicial, quer ao sistema forense é de fato procurar reduzir ao máximo os erros no testemunho de pessoas que, perante as perguntas que podem ser desadequadas (pergunta com resposta “sim/não” ou se determinado indíviduo era alto ou baixo), podem produzir traços de memória que venham a construir identificações falsas”, reitera.

Se imaginarmos muito algo…

Uma outra curiosidade sobre estas distorções prende-se com a imaginação. “Por vezes a imaginação pode transformar-se num traço de memória. Se nos imaginarmos muito a fazer algo, a dada altura não conseguimos distinguir se a fizemos ou não”, revela Pedro Albuquerque.

“Temos alguns estudos sobre memória para ações. Por exemplo, pusemos um grupo de participantes a fazer um conjunto de tarefas muito simples, como abrir uma garrafa ou colocar um relógio e um outro grupo a imaginar que as fazia. O desempenho não é diferente quando se imagina ou quando se faz, o que mostra que o traço de memória é muito parecido.”, descreve.

Um dos estudos de Pedro Albuquerque sobre esta área está relacionado com o Paradigma DRM [ver glossário] que ajuda a provar que criamos, com base em fatores como a força associativa das várias palavras no início deste artigo, ilusões de memória. Numa experiência com um grupo de alunos universitários, cerca de 90 por cento respondeu que a palavra “frio” se encontrava na lista.

Glossário: Paradigma DRM – As iniciais representam os nomes dos investigadores que o criaram (Deese em 1959 e Roediger e McDermott em 1995). Este paradigma reflete a tendência que uma determinada pessoa tem, para referir um item crítico, ou seja uma palavra associada (no exemplo, a palavra “frio”), após ouvir uma lista de palavras relacionadas com este item. Este paradigma começou a ser estudado em 1959 e tem sido repetido nos anos mais recentes para confirmar este fenómeno.

Por Renata Silva

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