A Fundo

Luto

Lídia abre-nos a vida como nos abre a porta de casa. Sem reservas. Antes de chegarmos à sala já nos mostrou as fotos dos filhos que tem no telemóvel. A do Santiago vai ser sempre a mesma, de um bebé.

Santiago nasceu com uma doença rara e fatal. Aos 4 meses foi-lhe diagnosticada Atrofia Muscular Espinal do tipo 1. Foi nesse dia que Lídia começou a viver a morte do filho.

Pediu para desligarem as máquinas 4 meses depois.

Devagar, reaprendeu a viver.

Lída não fez o percurso sozinha. Teve sempre a família, mas durante muito tempo não chegou. Quando ainda mal se falava de cuidados paliativos infantis, descobriu que era disso que o filho precisava, a pesquisar na internet.

A médica que lhe deu a notícia da doença do Santiago também lhe deu um papelinho com um número de telefone. Mas era um telefone de serviço, nunca esteve disponível.

Procurou muito até chegar à Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos, do Agrupamento de Centros de Saúde da Arrábida, em Setúbal. Encontrou a ajuda que lhe permitiu chegar aqui, quase inteira. Helena Salazar é a psicóloga da equipa.

Este é um daqueles casos em que era suposto a serem os serviços de saúde a encaminharem os utentes. Mas não foi assim.

Nem toda a gente consegue fazer o luto. A perda pode ficar para sempre. E a vida suspensa.

Os hospitais são obrigados por lei a ter equipas de cuidados paliativos. Aos poucos vai nascendo uma rede de unidades onde se prestam estes cuidados. A maior falha é ao nível das equipas comunitários que podem prestar este apoio em casa dos doentes, ao lado dos familiares. As consultas de luto existem nalgumas equipas. Também estão a surgir em consultórios privados.

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