Investigação

A cárie do SNS

Oficialmente não existem, mas tratam milhares de portugueses nos centros de saúde

Oficialmente, não existem. A carreira de médico dentista nem sequer está prevista no Serviço Nacional de Saúde. Ainda assim tratam milhares de portugueses, nos centros de saúde.

 

No interior centro encontra-se um caso curioso. António é médico dentista, trabalha num centro de saúde, ma não exerce, é técnico superior da carreira geral. “Já trabalhei como dentista, mas era ilegalmente, não posso, se acontecer alguma coisa… “
 

São contratados como técnicos, administrativos ou com outros títulos profissionais. Uma situação que os transforma em clandestinos do sistema. Uma clandestinidade preciosa. Atendem sobretudo doentes de risco, pessoas de menos recursos ou simplesmente quem os médicos de família determinam. Os que podem, porque, nalguns agrupamentos de centros de saúde, chega a haver um dentista para 500 mil pessoas.. Às vezes há critérios para definir quem deve ser atendido primeiro, outras vezes não.

 

Ao certo ninguém ainda conseguiu contá-los, mas serão poucas dezenas, os médicos dentistas nos centros de saúde. Vários pedidos de informação às 5 Administrações Regionais de Saúde ficaram sem resposta. Excepções apenas para o Alentejo, não há qualquer dentista nos centros de saúde, e para o Algarve, há apenas 1, no centro de saúde de Faro.

Na região de Lisboa e Vale do Tejo, a Administração Regional de Saúde afirma que o Programa de Saúde Oral inclui apenas os cheques-dentista. Ficou sem resposta o pedido de autorização para fazer reportagem numa unidade de medicina dentária, no coração da capital, onde trabalham 7 dentistas e um estomatologista.

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A sala de espera é um lugar tranquilo, confortável. Percebe-se que muitos são utentes habituais. Todos chegam por indicação do seu médico de família e aqui são seguidos pelo “seu” dentista. Há crianças, idosos, doentes crónicos mas também quem simplesmente não pode pagar um dentista privado.

 

TESTEMUNHOS – SONS – Vanessa

Encontrar um dentista num centro de saúde é pouco mais fácil que descobrir a tal agulha no palheiro. Encontrado um, é fácil chegar a outros, afinal , ainda que separados por muitos quilómetros, estão unidos pela estranha circunstância de serem clandestinos do Serviço Nacional de Saúde e da sua própria profissão. Alguns aceitaram dar o nome, outros não. Optámos por usar apenas nomes fictícios, oficialmente não existem, mas podem ser despedidos.

Em Julho identifiquei uma mulher com um dente no céu da boa. O médico de família nunca tinha visto. Não sabia o que era, teria 35/40 anos.

No meu ACES (Agrupamento de Centros de Saúde) sou o único dentista para 369 mil habitantes.  Faço o que é humanamente possível. Quando fui colocado, há 3 anos, o equipamento não estava a funcionar. Para não estar parado fui dar consultas para outro concelho. Faço cobertura escolar e vou trabalhando quando, e onde, há equipamentos que não estão a ser usados pelos higienistas orais.

As pessoas que me chegam são encaminhadas pelo médico ou pelo enfermeiro de família. À frente de tudo estão os casos em que há suspeita de lesão maligna. Atendo a qualquer hora. Agora que há cheque-dentista específico para estes casos posso depois encaminhar para outro local.

Chegam-me também as crianças até aos 18 anos, algumas porque já esgotaram o cheque-dentista, outras porque não estão cobertas, as que frequentam escolas privadas.

Os adultos com patologia, transplantados ou com problemas de baixa imunidade são os mais trabalhosos, dificilmente trato uma cárie… geralmente é preciso intervir em 20 ou 30 dentes. O problema é que não podemos fazer reabilitação nem colocar próteses, não é comparticipado. Em Julho, identifiquei uma mulher com um dente no céu da boa. O médico de família nunca tinha visto. Ela não sabia o que era, teria 35/40 anos. Assim recente, lembro-me também de uma criança de 4 anos, com 20 dentes, que precisava de intervenção em 18.

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uma miúda, nos seus 13 anos, tinha uma fístula por baixo do queixo, a drenar pus há mais de 6 meses. Era um abcesso externo gigante.

O que nós fazemos mais ninguém faz – doentes de risco, diabéticos, pessoas com cirurgia cardíaca, doentes oncológicos – tirando a nossa consulta, não há nada. Mesmo assim, os médicos de famílias também nos mandam abcessos. Para ter uma ideia já tratei uma miúda, nos seus 13 anos, tinha uma fístula por baixo do queixo, a drenar pus há mais de 6 meses. Era um abcesso externo gigante.

Chego a ter pessoas que desistem da consulta por já não terem isenção da taxa moderadora: a consulta são 7,5 euros e, por exemplo, a extracção de um dente são 3,5 euros e meio. Há quem precise de tirar 5 ou 6 raízes. Há quem diga que para isso já não tem dinheiro.

No hospital de referência da nossa região (arredores de Lisboa) não há estomatologista. Antes ainda conseguíamos enviar para o Hospital de S. José, em Lisboa, mas agora  o programa informático que gere as consultas obriga-nos a enviar ao hospital de referência que, por sua vez, tem de reencaminhá-los para Lisboa.

Estou a trabalhar como técnica superior, tive sempre contratos de 3 meses (era assim, ou nada…). Não tenho limites, por exemplo, para prescrição de medicamentos… Também já me disseram que não posso anestesiar sem autorização do médico. Todos conhecem o problema mas fazem de conta que não. A Administração Regional de Saúde de Lisboa mandou-nos uma norma em que tínhamos de atender no mínimo 14 pessoas por dia. A Ordem dos Médicos Dentistas não está preocupada, somos poucos, dizem-nos que não são nenhum sindicato.

(Picólogo 4 euros, médico de família 5 euros, dentista 7.50)

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